quinta-feira, 9 de julho de 2009

Nota de Corte

(Escrevi este na época de vestibular, quando via umas pessoas REALMENTE tensas)

Um único dia. Um só. Todo o trabalho e esforço (e haja esforço!) de um ano medido em um dia. Não sei se era essa a linha de raciocínio dele, mas, fato era que algum tipo de raciocínio lhe ocorrera, como sempre ocorreu, e, mais uma vez, lhe transtornava de forma ininteligível, mandando todo seu conhecimento às favas. Alguns chamam simplesmente de “branco”.

Não importa, já era a quinta vez dele naquela sala – não necessariamente aquela, ou seria? Deixa pra lá, essas salas são todas iguais – e o que (infelizmente) acontecia naquele momento indicava que haveria uma sexta vez. Alguns chamam simplesmente de “nervosismo”.

Não era possível, era mais que isso, só podia ser mais que isso! Será que as imagens de seu mui honrado pai, o Dr. Qualquer coisa, lhe incinerando com os olhos de reprovação lhe faziam temer aquilo que os próprios olhos do pai mostravam? Será que ele não tinha coragem de mandar o pai a merda? Será que era tão difícil explicar que não era aquilo que ele queria, e muito menos daquela maneira? Alguns chamam simplesmente de “medo”.

Mas vá lá, como já disse, era a quinta vez! E em todas as quatro anteriores o mesmo “o aluno não foi convocado”. Tal convocação parecia ser tão distante! E mesmo não sendo a que ele queria, ele urgia por ela, para poder ao menos se livrar de tantas cobranças descabidas. Mas não acontecera, não se livrara de nenhuma das cobranças. Alguns chamam simplesmente de “destino”.

Ele chamava de desatino. Má sorte do cão!!! Não, não agüentaria mais um ano de cobranças, humilhações, tristezas e falsas esperanças. Correu para a cozinha, abriu o armário e pegou as lindas e amadas facas de prata da mãe – facas que ela parecia gostar mais do que dele, mas tudo bem, afinal, elas serviam para a patética auto-afirmação daquela velha, um “aluno de cursinho” não – e, sem nenhum medo, da esquerda para a direita cortou seu abdômen.

2 comentários:

  1. AH, isso é triste demais. Mesmo assim, achei bom o "nota de corte". Você escreve bem, sabia?! Bem mesmo.

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  2. até quando se trata de uma tragédia vc é um fanfarrão né!

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